quarta-feira, 16 de maio de 2018

Osmar - O Jovem Professor


Cara leitora ou prezado leitor:
Muito mais tarde do que pretendia, dou hoje continuação às histórias de meu pai, aquelas que chegaram ao meu conhecimento. Repito o que escrevi na apresentação da crônica “Osmar – Primeiros Passos”:
"Ele viveu a evolução do Brasil ao longo do século XX e acompanhou as transformações extraordinárias do mundo todo. Nascido e criado no interior do Estado do Paraná, graduou-se professor em Curitiba, e se casou em Ponta Grossa. Depois de poucos anos, mudou-se para o Estado de São Paulo, morando inicialmente no interior e depois na Capital, cidade que ele amava e na qual se formou em Direito, criou os filhos e viveu até falecer, aos 79 anos. Formou com Jurema, minha mãe, um casal feliz e corajoso."
Naquela crônica, escrevi sobre sua origem, infância e adolescência. Nesta, escrevo sobre um período de sua juventude, quando, após se formar professor em Curitiba, foi, em busca de trabalho e (parece-me) de aventura, para Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Curitiba

De Castro, Osmar foi para Curitiba com o objetivo de fazer o curso de professor do curso secundário. Formou-se como professor de Português e História da Civilização (bem depois, no meu tempo de estudante, era História Geral). Desta temporada, sei de muito pouca coisa, quase nada, apenas me lembro de algumas histórias que ele contava sobre sua pensão e os outros hóspedes, também estudantes. Engraçadas, mas sem importância.
Hoje, pensando bem, entendo que não se poderia esperar que ele contasse para a esposa e os filhos muita coisa daquele seu tempo de jovem estudante solto em Curitiba.
O tempo era o pós Grande Guerra (esta durou de 1914 a 1918). No Paraná, a erva mate e a madeira eram os principais produtos da região, mas, pelo jeito, as ofertas de trabalho não eram muitas.
Osmar, logo depois de formado, teve uma oportunidade em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e decidiu aventurar-se. Tinha lá seus vinte anos. Para mim, ficou claro que ele não quis voltar para a casa dos pais.


Santa Maria 
Santa Maria, cidade situada na região central do Estado do Rio Grande do Sul, tornou-se, no início do século vinte, entroncamento ferroviário no estado, movimentando trens de transporte de carga com produtos da região e trens de passageiros; para todas as regiões do Rio Grande do Sul e para todo o país, principalmente para o Rio de Janeiro e São Paulo. A viação férrea exerceu enorme influência no desenvolvimento econômico, social e cultural de Santa Maria.
A cidade sediava a diretoria da Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil, arrendatária da rede rio-grandense desde 1898.
Era uma cidade movimentada, com muita gente de fora, franceses, italianos, nossos vizinhos argentinos e uruguaios e, claro, brasileiros de outras cidades do Rio Grande e de outros estados.
Osmar conseguiu, por intermédio de um conhecido de Curitiba, um emprego de telegrafista da estrada de ferro em Santa Maria e uma indicação para professor de um Colégio importante na cidade. Além disso, trabalhava nas sessões do cinema local, fazendo, no piano o acompanhamento sonoro dos filmes mudos de então (não tenho ideia de quando ele começou a tocar piano mas, certamente, desenvolveu esta habilidade em Santa Maria).
Jovem, independente, na flor da idade, frequentava os cabarés de então, onde aprendeu a dançar o tango argentino, que também tocava no piano. Ele, um pai muito discreto a respeito de suas histórias, de vez em quando comentava algumas particularidades dos amigos. Por exemplo, um dos seus companheiros das noitadas (hoje, o termo é “baladas”), o Manoel, era sempre acompanhado de seu pai, já viúvo, que, aliás, era bastante entusiasmado e estimulava o filho a sair com o grupo.
Não sei exatamente o que o chamou de volta ao Paraná, mas meu pai trouxe daquela cidade muito boas lembranças. Em seu livro de poesias, “Emoções que ficam”, homenageou a família Loureiro - Fontoura Ilha, dona do colégio em que ele trabalhou, com versos sobre a Terra Gaúcha.
Transcrevo, abaixo, uma dessas poesias:

Geme a “acordeona” no galpão fronteiro,
Cresce o “bochincho” e um “índio” moço, então,
Dando uma folga à vida de campeiro
Encosta o “pingo” à trava do potreiro
E entra arrastando as chilenas no chão.

Viera por bom lá da fronteira, ainda
Ninguém, talvez, conhecesse um melhor;
Tinha na trova uma destreza infinda,
Pois, foi por isso que a “chinoca” linda
Lá dos seus pagos se enredou de amor.

“Guapa”, a moçada, num clamor, contente,
Saúda o amigo que chegou “recém”;
Dá-lhe o melhor assento, num repente,
Porque é do estilo tratar bem da gente
Que de outras zonas em visita vem.

“Dê-le de mão na coisa, “seu” Pedroso...
Pegue a “acordeona” e “se estraguemo já”...
E o capataz da estância, “mui mimoso”,
Rompe a porfia e vê, farto de gozo,
Que a roda alegre o ovacionando está.

E o moço estranho ao contendor “chuleia”,
Dá a “pegadinha” de antemão, sorri.
Traga o “crioulo” e enfia na “peleia”,
Que um “guasca” vindo lá de longe, anseia,
Por já dar mostras de seu pano ali...

Geme a “acordeona”... O rosicler lá fora
Reveste o céu de encantador matiz.
O galo canta e a viração sonora
Infiltra a própria natureza, agora,
Do encantamento de um viver feliz.



Contudo, o jovem Osmar nunca poderia ter imaginado que, uns trinta e cinco anos depois, em São Paulo, sua filha se casaria com o neto de um médico italiano e uma senhora francesa da alta sociedade da Santa Maria daquele tempo, família que ele conhecera só de vista.

Washington Luiz Bastos Conceição